Tempo, tecnologia e qualidade de vida

por Cecília Russo Troiano

É inegável como é bom estarmos 100% conectados, de múltiplas formas, o tempo todo. Saber onde nosso filho está, avisar que chegaremos atrasados em casa, conectar-se de  um lado do planeta para o outro lado do planeta, tudo é possível. Certamente tudo isso é um bônus e tanto da vida moderna. Ainda bem que podemos viver e usufruir de tudo isso.

Mas, essa conexão incessante e acelerada tira boa parte da nossa espontaneidade e, pior do que isso,  rouba uma boa porção de nossa paz de espírito. Já repararam como é chato ser interrompido, inúmeras vezes, por chamadas de celular, durante um almoço com uma amiga querida? Já sentiu aquela sensação de desespero se não checa sua caixa de email, Facebook ou os últimos posts do twitter, a cada hora? Fica em pânico se vai para uma praia e não tem acesso à internet nem seu celular pega?

Pois é, vivemos esse dilema: amamos a conectividade e, ao mesmo tempo, odiamos toda essa parafernália digital que nos deixa malucos. Os filhos da geração pós-celular nem sequer sonham em imaginar suas vidas sem esses equipamentos. “Mãe, como você sobrevivia sem celular e sem computador?”, certa vez perguntou-me meu filho de 14 anos. Não era nada fácil mesmo. Sem dúvida, o celular e toda essa infinidade de gadgets tecnológicos são, hoje, indispensáveis. Se atualmente nossa rotina de equilibrista já é tensa e complicada, com certeza, ela seria ainda mais penosa sem esse acervo high tech que nos acompanha diariamente.

Mas nada é de graça, tudo tem um preço. Em recente pesquisa realizada nos EUA - "21 st Century Mobile Mom"– as análises confirmam essa relação umbilical especialmente entre mães e smartphones. Lá a adoção de celulares com mais funcionalidades cresceu  64% desde 2009, quando a última edição da pesquisa foi realizada. Mais da metade (51%) das mulheres ouvidas declaram-se viciadas em seus smartphones e 53% afirmam que resolveram comprar o smartphone após o nascimento dos filhos. A pesquisa afirma categoricamente: "A tela do smartphone é o meio mais íntimo que temos hoje. As mães dormem com o celular ao lado da cama e a primeira coisa que fazem ao acordar é checá-lo”.

Não quero pregar o fim do uso de celulares, muito pelo contrário! Amo o iPhone, não vivo sem meu computador, estou me apaixonando cada dia mais pelo iPad e quero a internet cada vez mais rápida. Mas se queremos ter uma vida com qualidade, refletir sobre o uso dessas máquinas em nossas vidas é fundamental.  Será que precisamos mesmo estar disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana? Será que tudo é tão urgente como aparenta ser? O que aconteceria conosco se fossemos durante um final de semana para uma praia deserta sem celular? Sobreviveríamos? Algumas pessoas diriam que não!

Hoje, sobra velocidade mas falta qualidade. Abundam os contatos no Facebook mas temos poucos amigos de verdade. Temos pressa para tudo e nos esquecemos de curtir, com calma, os momentos gostosos da vida. Será que precisa ser sempre assim? Sem abrir mão de todas essas maravilhas, creio ser urgente pensarmos em como podemos fazer essas ferramentas maravilhosas serem nossas amigas de verdade, ajudando-nos a viver melhor e sermos mais felizes.

Uma noite dessas vivi em família uma experiência que há tempos não fazia. Em nossa casa, quase todas as noites jantamos os quatro juntos, em volta de uma pequena mesa redonda, ao lado da janela do jardim. Mas sempre ficamos comprimidos pelo tempo e pelas distrações digitais, o jantar acaba sendo mais rápido do que, nós pais, gostaríamos.  Nossos filhos querem encerrar logo o jantar para retornar ao Facebook ou para o Skype, falar com o namorado ou com os amigos. Não demora e lá vem a frase:  “posso levantar?”. 

Mas tudo foi diferente nesse dia. Fomos abençoados por duas horas sem luz. O que era para ser um desastre,  foi uma descoberta.  Acendemos velas e degustamos o jantar. Calmamente. Conversamos muito, os quatro sem pressa, sem conexões que nos esperavam, sem distrações digitais, sem TV. Foram duas horas deliciosas, preciosas e com tempo de sobra. Cada um contava uma história e tínhamos tempo e interesse para ouvir a história do outro. Um tempo de qualidade, inesquecível, feliz.

Pois é, em nosso dia a dia faltam momentos como esses. E não adianta esperarmos a companhia de luz tomar essa decisão de desconexão em nosso lugar. Mais do que delegarmos essa missão a alguém, vale muito a nossa reflexão e insistência para vivermos mais momentos de “desligamento” do mundo. Afinal, mais do que passar pela vida rapidamente queremos vivê-la intensamente, certo? Fica lançado o desafio para todos nós, inclusive para mim!

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Cecília Russo Troiano

Cecília Russo Troiano
Psicóloga e Diretora Geral do Grupo Troiano de Branding, grupo de 3 empresas especializado em comportamento do consumidor e gestão de marcas. É também autora de livros e artigos relacionados ao universo das famílias contemporâneas. Em 2007, lançou seu primeiro título - "Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha" - e, em abril de 2011, "Aprendiz de equilibrista: como ensinar os filhos a conciliar família e carreira". Mantém seu blog www.vidadeequilibrista.com.br, é colunista do portal Vila Mulher e palestrante regular em eventos.
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