
Saberes e Sabores da Cultura Brasileira
por Marina Gonzales
A cultura brasileira é cheia de histórias que misturam dois ingredientes que alimentam nossa alma e nosso paladar. São saberes que ainda não sabemos e sabores muito conhecidos em nosso dia a dia, que passam despercebidos se não situamos como valores fundamentais do patrimônio cultural brasileiro.
Poucos sabem, por exemplo, que o Acarajé, uma iguaria baiana que encanta brasileiros e estrangeiros, é Patrimônio Cultural Imaterial - assim como o Queijo de Minas e as Panelas de Barro fabricadas artesanalmente no Espírito Santo.
Segundo a Unesco, Patrimônio Cultural Imaterial compreende “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados e que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”.
Em consonância com esta convenção, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) vem reconhecendo desde 2004 em seu "Livro dos Saberes" riquezas deliciosas de nossa cultura, no sentido de preservar o ofício daqueles que as criaram e bravamente ainda exercem, apesar da “contramaré” que a indústria do fastfood impõe e ameaça extinguir.
Até agora, temos registrado o Acarajé e o ofício das baianas, uma tradição afro-brasileira passada oralmente de geração para geração, que sustenta muitas famílias com o trabalho destas mulheres; o modo artesanal de fazer o Queijo de Minas, símbolo e significado que define a identidade do mineiro; e o ofício das Paneleiras de Goiabeiras do Espírito Santo, que fabricam artesanalmente as Panelas de Barro, um produto de origem indígena onde cozinhamos as deliciosas muquecas, que conservam todas as características essenciais da prática dos grupos nativos das Américas antes da chegada de europeus e africanos no Brasil.
Esse modo artesanal, natural, tradicional de fazer essas iguarias são traços marcantes de nossa identidade, ainda pouco valorizada pelos próprios brasileiros.
E todo o prazer que sentimos ao provar de seus sabores únicos e indescritíveis vem daí, de uma energia invisível que agora se revela pelo conhecimento dos saberes originais que vem de longe e "ainda" chegam até nós.
Saborear é muito bom. Saber valorizar e preservar nossa cultura gastronômica só pode melhorar ainda mais nossas vidas. Esse é o papel da cultura: não é aquilo que entra pelos olhos e boca, é o que modifica nosso olhar, amplia nosso paladar e enche nosso coração de alegria.
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