Criar e ousar

por Viko Tangoda

 

Ousar! Esse é o segredo para aqueles que desejam inovar e criar novos pratos - e, por que não, preparar antigas receitas, aquelas da nossa memória afetiva, como os preparados pela minha mãe.

A deliciosa galinhada, de galinha caipira mesmo, criadas soltas no quintal, ou a deliciosa costela de boi, feita na panela de pressão, soltando dos ossos e cheia de aromas e sabores, acompanhada daquela deliciosa mandioca amarelinha desmanchando de cozida.

Isso porque gastronomia é, antes de tudo, um olhar para o mundo que está ao nosso redor. Os sabores, os aromas e a estética podem ser traduzidos tanto naquilo que já vimos como na busca de novas referências. Nesse caso, o antigo não significa necessariamente o oposto ao novo. São conceitos que, na culinária, complementam-se. Uma sugestão interessante para quem quer começar a se aventurar e a fazer pratos mais ousados é uma visitinha às feiras e aos mercados. O que parece ser à primeira vista um passeio corriqueiro, pode render boas surpresas.  

Para quem está em São Paulo, a dica é o Mercado Municipal. Tire um dia na semana para visitar e conhecer, além dos ingredientes mais tradicionais, aqueles que parecem ser mais exóticos. Veja, passeie, espante-se e converse com outros fregueses e com os próprios vendedores. Sabe aquele ingrediente esquisito, que você não conhece? Aposte nele! Leve-o para casa e brinque, descubra os sabores e as inúmeras possibilidades que ele pode ter.
 
Em uma dessas andanças em busca de novidades, levei para a minha cozinha talos de taioba. Ela também faz parte de minha memória afetiva, mas na infância comia as folhas e, neste dia, encontrei o talo.
 
Comecei, então, a brincar e a testar as possibilidades dessa parte deste ingrediente que, até então, me era inusitado. Após cortar e identificar seu aspecto espumoso, resolvi aplicar uma técnica japonesa de salgar levemente para eliminar o excesso de água. Para minha surpresa, os talos de taioba ficaram maleáveis e com um aspecto belíssimo, como uma renda. De tão bonito que ficou, utilizei-o para decorar os canapés que servi em um evento. E claro, meus canapés com rendas de talo de taioba fizeram o maior sucesso.
 
Infelizmente, esse é um produto difícil de ser encontrado e, por isso, nunca mais usei em minhas receitas. Mas mesmo assim, costumo, tanto em São Paulo como nas minhas viagens, buscar novas ideias, novos sabores. Ou seja, é fugir do óbvio e partir para aquilo que, secretamente, esconde algo delicioso ao paladar e aos olhos de quem prepara e de quem saboreia.

Afinal de contas, comer e, para quem está no ramo da gastronomia, elaborar pratos e receitas, devem ser feitos com prazer. Com alma e, principalmente, com ousadia!

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Viko Tangoda

Viko Tangoda
No ramo da gastronomia há mais de 20 anos, aperfeiçoou os dons culinários sob influência de suas avós e experimentações no Brasil e em países como Tailândia, França, Portugal, Espanha, México e Estados Unidos. É o banqueteiro oficial, desde 2004, do Camarote da Brahma (Carnaval do Rio de Janeiro) e atende as áreas Vips do Grande Prêmio da Fórmula 1. Sua empresa, a Viko Gastronomia, também presta consultorias, desenvolvendo cardápios, estudos logísticos para o funcionamento de cozinhas e treinamento dos serviços de buffet.
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