
A estética da cerâmica nas refeições
por Hideko Honma
Objeto Original – A natureza
Lembro-me de que em 1990, recebemos a irmã octogenária do meu pai. Era a sua primeira visita ao Brasil. Não se viam a mais de 70 anos. Eles se separaram na infância e depois perderam o contato quando a Embaixada Japonesa na Manchúria foi bombardeada durante a primeira guerra mundial. Nesta ocasião, Tia Sadako san que fazia parte do corpo diplomático japonês na Manchúria foi dada como desaparecida.
No Brasil, nós a recebemos em uma pequenina cidade do interior de São Paulo, no espaço onde temos plantado: a casa de campo e o atelier de cerâmica da família. No almoço, confraternizamo-nos sob uma enorme jaqueira que ainda hoje nos oferece enormes e suculentos frutos.
Na ocasião os frutos estavam estourando, prontos para serem colhidos e devorados. O aroma fresco e adocicado daquela tarde é inesquecível. Na hora da sobremesa, colhemos uma das jacas maduras. E somente naquele momento percebemos que não havia prato ou talher para servi-la. Ficamos um tanto quanto decepcionados com a possibilidade de saborear a fruta de maneira pouco civilizada perante uma visita tão particular.
Em segundos presenciei uma ação que abriu uma janela no meu pequeno mundo. Tia Sadako san juntou algumas folhas da jaqueira, passou cada uma delas em uma tigela cheinha de água fresca, sacudiu-as ao vento, em seguida juntou dois galhinhos secos que encontrou sobre a grama, passou-os também na água, sacudiu-as ao vento e transformando-os em hashi foi elegantemente servindo os suculentos gomos de jaca sobre as folhas da grande jaqueira que abraçava-nos parecendo não se agüentar de tanta satisfação. Aprendizado memorável!
A Natureza é fonte inesgotável de inspiração para o meu trabalho.
Formas que acolhem e alimentam – A Família
Quando iniciei o meu trabalho de Cerâmica fiz pratos enormes para acomodar as carpas fresquíssimas que o meu marido trazia das pescarias bem sucedidas. No final do dia eu mesma preparava o sashimi. Limpava o peixe e o cortava em tirinhas quase transparentes depositando-as lado a lado sobre o sashimizara ou prato de cerâmica azul água, esmaltado e vitrificado com cinza de bananeira.
Para acompanhar o prato azul água com o sashimi, criei 6 chawan ou tigelinhas em forma de mãos em cuia para aconchegar o shirogohan ou arroz branquinho, branquinho. E finalmente torneei 6 yunomi ou xícaras para servir o chá verde fumegante. Itadakimassu! bom apetite!
Observando as necessidades das famílias durante as refeições, fui adquirindo consciência da necessidade de cada objeto essencial à mesa.
Cinzas com podas da vegetação brasileira – A Matéria Prima
Em 1990, fui enviada ao Japão para uma especialização profissional com o objetivo de dominar a técnica de utilização de cinzas de podas vegetais para a produção de esmaltes vidrados.
No Japão esta técnica é comumente utilizada pelos ceramistas tradicionais e estes têm como pratica adquirir cinzas padronizadas de variados vegetais cada qual com a sua descrição e ficha técnica muito bem descrita e organizadíssima.
Uma das minhas experiências marcante desta época foi com a cinza do Vulcão Aso em Kumamoto. Quando voltei ao Brasil a imagem que me chamou a atenção foi a de um monte de grama fresca, recém podada. Naquele momento tive a certeza de que uma das matérias prima que eu utilizaria abundantemente seria a grama. Alem desta utilizo podas de bananeira, eucalipto, coqueiro e bambu.
Sou grata à Natureza que com as cinzas e fogo à 1300 graus C, transmuta-se em esmaltes vidrados azuis, verdes, marrons. É luz e vida sobre uma forma de barro. Presente da Natureza!





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