
Perceba novos sentidos na alimentação
por Elis e Maria
O Ateliê No Escuro nasceu de uma grande inspiração. Nós, psicólogas de formação, e entusiastas de novas experiências (especialmente as gastronômicas!), em uma viagem pela França, fomos cair no Dans Le Noir, um restaurante que funciona num completo escuro, e o atendimento é feito por garçons deficientes visuais. Foi uma festa!
Sem titubear, comemos tudo com as mãos, rimos à beça, e nos emocionamos com a experiência. Saltitantes pelas ruas parisienses, pensamos “Precisamos mostrar isso pra fulano, beltrano...”. E foi o que fizemos. Com panos coloridos, vendamos os olhos dos amigos, pais, tios, cozinhando nós mesmas as invenções de nossas cacholas. “Podíamos colocar uma música pra embalar ainda mais”, pensamos. “E se lermos um poema, ou um texto da Clarice Lispector, acho que emocionaria muito”. As ideias foram nascendo. O pacote ficou tão bom, que começaram a surgir as encomendas. E o Ateliê No Escuro nasceu. Naturalmente, sem pressa, de parto normal.
O escuro é o lugar da fantasia, do desconhecido, do mágico. Para usar termos psis, do inconsciente. Vivemos em um mundo incrivelmente visual e imagético. A visão é o sentido do controle, do mundo externo, a antecipação dos objetos e estímulos. Por ela ter ficado tão prevalente, os outros sentidos ficaram adormecidos. Se vejo um tomate, não me dou ao trabalho de cheirá-lo, perceber sua textura, seu suco. Já sei que se trata de um tomate. No Jantar No Escuro não, não sei nada do que está à minha volta, não conheço o que estão me servindo, não posso antecipar. Tudo acontece em seu tempo, e o grande desafio é decifrar os estímulos que vão sendo apresentados. Do que é feita essa trouxinha que me serviram? Hum, é crocante, e ao mesmo tempo ácida... Espere um pouco, deixa eu cheirá-la. Pelos dedos vou sentindo uma textura espessa. Mais uma mordida. Ah! Cogumelos com limão!
Que instrumento é esse, tão doce, que está lá longe, e aos poucos, vem se aproximando de mim? Me lembra o piano da minha vó, lá na infância. Ah! Um acordeon!
Num mundo voltado para fora, onde o que importa é o que faço e o quanto produzo, e não o que sou, a experiência de fechar os olhos, se entregar, e ser conduzido, apesar de tão simples, pode ser impactante e transformadora.
Conheça o Ateliê No Escuro.
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