O consumo de café por crianças e adolescentes

por Semiramis Domene

O cardápio na infância e na adolescência deve ou não incluir café?

Bebida de consumo tradicional por grande parte das famílias brasileiras, o café tem presença garantida, sobretudo no início do dia. Ele contém uma mistura de compostos com diferentes efeitos sobre a saúde, e por isto sua inclusão na dieta de crianças e adolescentes divide especialistas.

De um lado, a presença de cafeína reconhecidamente associada a efeitos como a manutenção da vigília – com eventual efeito positivo sobre a atenção e, consequentemente, o aprendizado;  de outro, estão os diterpenos - que podem elevar os níveis de colesterol circulantes -, e os taninos, que em excesso podem comprometer o aproveitamento dos minerais da dieta, tão importantes na infância.

A favor ainda pesam os resultados de estudos epidemiológicos que sugerem o efeito protetor do consumo regular e moderado de café sobre a diabetes, a doença de Parkinson e o câncer hepático. Por outro lado, a bebida parece contribuir para complicações do sistema cardiovascular, como aumento de pressão arterial e elevação da homocisteína.

Vamos buscar na ciência elementos para iluminar este cenário e considerar as evidências consistentes sobre processamento e dosagem seguros.

A técnica empregada para o preparo do café pode resolver parte do dilema: estudos mostram que ao empregar filtragem, os teores de diterpenos diminuem; portanto, o uso de equipamentos que dispensam filtros de papel devem ser evitados em todos os estágios de vida, privilegiando-se os processos tradicionais de preparo.

Mas o que dizer sobre a quantidade segura para uso na infância e na adolescência? Diversas pesquisas concluíram que o consumo de 300 mg por dia para adultos é seguro; isso equivale a aproximadamente 2 xícaras, das de chá, de café. Contudo, dada a escassez de estudos com crianças e adolescentes, órgãos importantes como a Associação Norte-Americana de Nutricionistas não estabelecem limites para o consumo antes da idade adulta, fase em que se considera haver maior vulnerabilidade.

Considerando o peso corporal e ainda certa prevenção pelos efeitos potencializados em função do crescimento, países como o Canadá procuraram estabelecer diretrizes para orientar as famílias quanto ao consumo de café por crianças. Segundo essas disposições, para escolares com 7 a 14 anos não se deve exceder 62,5mg a 80 mg de cafeína por dia ou cerca de 50 a 60 ml de café – se a bebida for a única fonte - e evitar tornar esta prática um hábito. Vale lembrar que a cafeína está presente também em outros alimentos, como refrigerantes, chocolate e chá. Para que se tenha uma referência, 30 g de chocolate contém aproximadamente 7 mg de cafeína.

Até que se conheça mais sobre o assunto, a cautela no consumo de café na infância e na adolescência é importante para que se evite especialmente o risco associado aos efeitos bioquímicos observados em adultos que, ao se tornarem consumidores regulares, interrompem o uso da bebida: é comum o relato de dores de cabeça que cessam com a retomada do consumo.

Como em muitos casos na nutrição, bom senso na dose, variedade na escolha e cuidado no preparo continuam sendo caminhos seguros!

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Semiramis Domene
Semiramis é Nutricionista, mestre e doutora em Nutrição pela UNICAMP com pós-doutorado em Nutrição pela UNIFESP. No Instituto Nutra e Viva, participou da concepção dos indicadores nutricionais de qualidade e definiu toda a informação técnica apresentada nos produtos e serviços, garantindo que estejam de acordo com consensos internacionais. Sensível e atenciosa, alia os conceitos mais atuais e reconhecidos de nutrição e saúde com a arte de viver bem.
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