Corantes em alimentos são seguros?

por Semiramis Domene

 

Presentes em inúmeros alimentos, os aditivos alimentares desempenham funções preservativas ou sensoriais em diversos produtos, além de auxiliarem o processamento na indústria e no lar; são também considerados aditivos os nutrientes, como minerais e vitaminas, que se somam aos teores naturalmente presentes nos alimentos.

Desde o uso do sal, talvez o primeiro aditivo empregado para conservar produtos cárneos, a lista de compostos intencionalmente adicionados aos alimentos processados aumentou; portanto, é compreensível que haja preocupação quanto à segurança de seu consumo. Estima-se que existam algumas centenas de compostos diferentes!

Como cresce a diversidade de alimentos processados disponíveis todos os dias nas prateleiras dos supermercados, nos restaurantes e nas lanchonetes, a exposição do consumidor a corantes, flavorizantes, estabilizantes, aromatizantes, emulsificantes, umectantes, antioxidantes, conservantes, de forma isolada ou combinada, tende a aumentar também.

Paraser empregado em um alimento, o aditivo é submetido a testes químicos e, posteriormente, ensaios toxicológicos com animais experimentais, que verificam eventuais efeitos adversos e cumulativos com risco à saúde. Por este motivo, quando aprovados, só podem ser adicionados aos alimentos obedecendo limites, propostos por órgãos oficiais em cada país; no Brasil, quem regulamenta o uso dos aditivos pela indústria de alimentos é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Contudo, a exposição a aditivos vem sendo debatida com mais cautela após a constatação de casos de alergia e hiperatividade em crianças e jovens que responderam positivamente quando houve interrupção do consumo de alimentos com corantes sintéticos, de uso regulamentado em diversos países, entre os quais está o Brasil.

Esta suspeita associação -  entre corantes e hiperatividade infantil - foi comprovada em estudos científicos, como o Isle of Wight Study, parte de um programa de prevenção para reduzir a exposição a substâncias que causam alergia; as conclusões do estudo, publicadas no ano 20041, foram de que o comportamento de crianças hiperativas mudou significativamente após a remoção de corantes e aditivos da dieta.

Outro estudo2, publicado em 2007 na revista Lancet – um periódico de elevado prestígio no meio acadêmico - envolveu 153 crianças de 3 anos e 144 com 8 a 9 anos, que consumiram uma bebida com benzoato de sódio e corantes artificiais (tais como amarelo crepúsculo e tartrazina)  em concentrações encontradas em confeitos para consumo infantil. Após analisar o comportamento das crianças, os pesquisadores britânicos concluíram que dietas com os corantes artificiais ou com benzoato de sódio (ou ambos) resultam em aumento da hiperatividade em crianças das idades estudadas.

De forma aparentemente paradoxal, os resultados dos estudos científicos que apontam riscos para a saúde nem sempre resultam em mudanças na legislação; isto acontece porque as agências oficiais costumam avaliar os dados produzidos por muitos trabalhos para rever ou formular uma norma técnica. Para que se tenha uma ideia de como a polêmica é grande, o Dr. Mitchell A. Cheeseman, da agência norte-americana FDA – Food and Drug Administration rebateu os resultados dos estudos com corantes sintéticos e hiperatividade infantil, em publicação de janeiro de 20123; na visão da Agência, há inconsistências na interpretação dos resultados, uma vez que o comportamento alterado das crianças que consumiram aditivos não pode ser atribuído aos efeitos neurobiológicos que alguns indivíduos podem apresentar quando expostos a determinados componentes alimentares.

Frente a este cenário, parece claro que ainda há muito a esclarecer sobre o tema, apesar de décadas de pesquisa e de consumo dos aditivos!

Fica então a reflexão: se a exposição a produtos coloridos artificialmente pode trazer risco - mesmo que para alguns indivíduos - e não há vantagens nutricionais nos alimentos processados e coloridos como confeitos, biscoitos recheados, bebidas lácteas, sobremesas, refrescos e refrigerantes, parece razoável evitar a compra e o consumo, não é mesmo?

O momento da compra é muito importante: verifique no rótulo quais são os aditivos empregados e opte por uma marca que tenha menor quantidade destes produtos.  O consumidor tem grande poder de influência sobre as opções tecnológicas da indústria, que tem sabido atender ao aumento da exigência de um público preocupado com sua qualidade de vida! Ensine este cuidado aos seus filhos e amigos, e promova educação alimentar como expressão de carinho e atenção!

Referências

1.Bateman B, Warner JO, Hutchinson E, et al. The effects of a double blind, placebo controlled, artificial food colourings and benzoate preservative challenge on hyperactivity in a general population sample of preschool children. Archives of Disease in Childhood, 89: 506–11, 2004.

2.McCann D, Barrett A, Cooper A, Crumpler D, Dalen L, Grimshaw K, Kitchin E, Lok K, Porteous L, Prince E, Sonuga-Barke E, Warner JO, Stevenson J.Food additives and hyperactive behaviour in 3-year-old and 8/9-year-old children in the community: a randomised, double-blinded, placebo-controlled trial. Lancet, Nov 3;370(9598):1560-7, 2007.

3.Cheeseman MA. Artificial food color additives and child behavior. Environmental Health Perspectives, 120(1):A16, 2012.

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Semiramis Domene
Semiramis é Nutricionista, mestre e doutora em Nutrição pela UNICAMP com pós-doutorado em Nutrição pela UNIFESP. No Instituto Nutra e Viva, participou da concepção dos indicadores nutricionais de qualidade e definiu toda a informação técnica apresentada nos produtos e serviços, garantindo que estejam de acordo com consensos internacionais. Sensível e atenciosa, alia os conceitos mais atuais e reconhecidos de nutrição e saúde com a arte de viver bem.
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