
Consumo de álcool e qualidade de vida
por Semiramis Domene
O uso moderado de álcool é considerado, segundo especialistas, como seguro para a saúde - desde que acompanhado de uma alimentação equilibrada.
Trata-se de um tema delicado em uma sociedade afetada cotidianamente pelos efeitos nefastos causados pelo consumo não responsável de bebidas alcoólicas. O que dizer sobre os acidentes de trânsito, aos quais todos estamos expostos - consumidores de álcool ou não - e do drama de muitas famílias que convivem com indivíduos adoecidos pelo vício?
Entre os problemas relacionados ao excesso de álcool estão as doenças hepáticas, renais, cardiovasculares e quadros psiquiátricos de abordagem complexa e, muitas vezes, de longa duração.
Em estudo sobre o tema, Rosalind Breslow, do Instituto Norte-Americano sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo, e seus colegas analisaram a dieta e o consumo de álcool relatado por 3729 adultos entrevistados em estudo de caráter nacional conduzido nos Estados Unidos nos anos de 1999 e 2000.
Os resultados mostraram que à medida que o consumo de álcool se eleva de uma a três doses ou mais por dia, a qualidade da dieta cai de 65 pontos para 61. As dietas com pontuações mais baixas de 58,5 foram encontradas entre as pessoas que consumiam as mais altas quantidades de bebidas alcoólicas, embora com menor frequência.
O uso de bebidas alcoólicas no Brasil é alto: 52% da população declara ter hábito de beber e 29% ingere cinco ou mais doses por ocasião. Estes dados são do estudo publicado em 2010 pelo Prof. Ronaldo Laranjeira da UNIFESP com a colaboração de colegas, em que um quarto das 2346 pessoas entrevistadas em todo o país relatou ter pelo menos um tipo de problema decorrente do etilismo e 9% se declarou dependente. As bebidas preferidas são a cerveja e o vinho branco e o consumo de maiores volumes está associado ao sexo masculino, baixa escolaridade e menor poder aquisitivo.
Tendo esse cenário em vista, a opção por desfrutar conscientemente o álcool nos leva à seguinte questão: qual é a quantidade e a frequência consideradas seguras para a saúde?
Ao considerarmos as diferenças individuais decorrentes de nosso patrimônio genético, essa pergunta só poderia ser respondida com segurança após conhecermos a capacidade de cada um em metabolizar o álcool. Sabe-se que para indivíduos muitos sensíveis, quantidades mínimas - como aquelas presentes em flambados ou essências - podem causar intolerância hepática.
Estudos na área da genômica estão se aproximando de desvendar a ligação entre a toxicidade do álcool e o surgimento da dependência química pela droga, com destaque para a compreensão da expressão gênica da enzima álcool-desidrogenase especialmente entre mulheres, que passam a adotar padrões masculinos de consumo com uma tolerância, em geral, menor. O desenvolvimento de pesquisas nesta área é de grande relevância para a saúde pública.
Segundo o Guia Alimentar para a população brasileira, o limite considerado máximo para pessoas que não apresentam sensibilidade elevada ao álcool é de uma dose de bebida ao dia para mulheres e duas para homens. Para saber o que é considerado como uma dose, uma vez que a concentração de álcool varia entre os diferentes tipos de bebida, veja a orientação que o Ministério da Saúde traz:
Portanto, meia taça de vinho, uma lata de cerveja ou o equivalente a uma xícara pequena de café de destilados como cachaça fornecem, aproximadamente, a mesma quantidade de álcool e são considerados como uma dose.
O trabalho dos pesquisadores Rosalind A. Breslow, Patricia M. Guenther, e Barbara A. Smothers intitulado Alcohol Drinking Patterns and Diet Quality: The 1999-2000 National Health and Nutrition Examination Survey foi publicado em 2006 na revista American Journal of Epidemiology. O estudo brasileiro está na Revista Brasileira de Psiquiatria de setembro de 2010 com o título "Padrão de uso de álcool em brasileiros adultos".
Se você está entre os apreciadores de um bom vinho ou um copo de chopp com os amigos, busque harmonia nas suas escolhas - viva mais, e melhor!
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